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Um homem rico, mas avarento, tinha perdido dentro de um alforge uma quantia de ouro bastante avultada. Anunciou que daria cem mil reis de alvíssaras a quem lha trouxesse. Apresentou-se-lhe em casa um honrado camponês levando o alforge. O nosso homem contou o dinheiro, e disse:

 

–  Deviam ser oitocentos mil réis, que foi a quantia que eu perdi; no alforge encontro apenas setecentos. Vejo, meu amigo, que recebeste adiantado os cem mil réis de alvíssaras; estamos pagos, por conseguinte.

 

O bom camponês que nem por sombras tocara no dinheiro, não podia nem devia contentar-se com semelhantes agradecimentos. Foram ter com o juiz, que, vendo a má-fé do avarento, deu a seguinte sentença:

 

-Um de vós perdeu oitocentos mil réis; o outro encontrou um alforge apenas com setecentos. Resulta daí claramente que o dinheiro que o último encontrou não pode ser o mesmo a  que o primeiro se julga de direito. Por conseguinte, tu, meu bom homem, leva o dinheiro que encontraste e guarda-o até que apareça o individuo que perdeu somente sete mil réis. E tu,  o único conselho que passo a dar- te é que tenhas paciência até que apareça algum que tenha achado os oitocentos mil réis.

Texto de : Guerra Junqueiro, Contos para a Infância, Educação Literária, Porto Editora,


Nero tinha enchido um saco de juta com palha.

– Aqui está! Estas são as minhas mei…

– Oh, esperamos que não! – Brincou Cornélia rummminnnnando . Parecia quase um teatro; havia os autores e o público, a cenografia e trepidante espera pela abertura do pano. Os ratinhos, com os focinhitos foras das meias penduradas, olhavam para cima. Verdina, Vermiglia e Viola, com Dulcineia e Desdémona, batiam as asas, pelo que foram repreendidas pelo Ettore por estarem a perturbar; a família dos coelhos estava em fila em cima dos caixotes. Lá fora, erguida a escada larga e plana que a conduziria pelos ares até ao telhado do estábulo. Pilú e Palmiro enrolavam as cordas em volta de Sissi; Nero de um lado e Jimmy do outro prenderam as pontas. Da abertura do teto, uma sombra misteriosa apareceu sorrindo entre os gritos dos mais pequenos. Lentamente, uma velhinha montada numa vassoura com um lenço na cabeça e um saco às costas, foi descendo…

– É a Befana! – gritaram todos.

– Não, meninos … sou eu! – respondeu a Sissi, rindo.

A experiência fora bem sucedida. Os animais podiam ficar tranquilos, pois a verdadeira Befana entraria sem dificuldades. Nos dias seguintes, Pérola acabou de fazer as meias de lã, cada um escolheu a ornamentação a coser em cada uma delas e todas foram penduradas na corda da roupa presas com as molinhas de madeira coloridas. As cartas enviadas com os selos da lua e da estrela foram entregues, assegurara o carteiro Hélio. Só lhes restava esperar: Faltava um dia para o dia 6 de Janeiro.

Texto de: Bianca Belardinelli, Contos de Natal, Círculo de Leitores,2010


Cansado de estar na fila, alguém se lamentou, ao que Cornélia, autoritária, respondeu que não havia outra forma de levar a empreitada até ao fim e que não era permitido refilar.

Pilú não acreditava, sobretudo porque se dera conta claramente de que apenas faltava uma cartinha. Não sabia o que fazer… mas, por sorte Jimmy, um cavalo sábio que já vivera  muitas coisas aproximou-se dele.

– Escreve também uma carta, Pilú. Na minha opinião, ela vai chegar à Befana, porque não?

E assim fez, feliz por também poder contar à Befana a aventura desta empreitada.

A atividade de « selocarimbagem», como Vermiglia, que adorava dar nomes a tudo, a batizou, prosseguiu até ao anoitecer, deixando toda a gente exausta, mas feliz .

Mas, se é verdade que este problema fora brilhantemente resolvido… um outro nasceu depois.

– Não acham que  a abertura no telhado é demasiado pequena?- observou Cleofe a dada altura.- Acho que tem de ser alargada: como  é que a Befana vai conseguir entrar em todas as nossas meias…

– Mas não podemos alargá-la assim, temos de pedir autorização! – respondeu subitamente Desdémona, que nunca estava de acordo com as ideias da cabra.

Interveio então o galo, que propôs fazerem uma experiência:um deles descia de lá de cima com um grande saco de meias às costas, algumas cheias de presentinhos e de guloseimas.

Mas claro que era preciso encontrar quem estivesse disposto a fazê-lo.

– Oh, acho a ideia ótima! – comentou a Sissi, que prontamente levantou a perna para se oferecer como voluntária no meio da aprovação geral.

– Anda, Pilú, ajuda-me a preparar.

Pouco tempo depois ambos regressaram : Sissi pusera na cabeça um lencinho de quadradinhos vermelhos que encontrara no cesto da roupa de passara a ferro, enquanto o Pilú segurava numa vassoura de sorgo, que fora buscar ao quarto das ferramentas que ficava nas traseiras da casa.

– Faltam as cordas para descer a Sissi de lá de cima!- reparou Max. – Vem , Ettore, vamos       buscá-las.

– Eu ajudo – disse o papá coelho juntando-se aos dois e, em poucos minutos, o estábulo estava pronto para levar à cena a chegada da velhinha voadora. A mamã Ratinho, a Pérola e a Nuvem estavam a maquilhar a Sissi que, agora com o lencinho na cabeça, um manto feito de um pedaço de pano que estava em cima prateleira a cobrir os frascos e um pouco de fuligem no focinho conseguira já assustar os coelhitos que correram a esconder-se por detrás da escada. (cont.)

Texto de: Bianca Belardinelli, Contos de Natal, Círculo de Leitores,2010


– Oh, olá Pilú ! – gritou Max, que não parecia muito satisfeito por ter de ajudar Pérola, mas, tratando-se de uma gatinha tão bonita, nunca conseguia negar-lhe nada. Pérola tricotava umas meias com lãs de cores que queria oferecer aos seus companheiros de quinta no dia 6 de Janeiro.

– Tu não quererás também umas?- perguntou ela — Claro que escreveste uma carta à Befana, não escreveste?

– Bem, bem…

Ouviu -se tocar a sineta próximo do estábulo, o carteiro chegara. Dulcineia e a irmã Desdémona estavam já à porta, prontas para entregar os seus envelopes, Sissi fora de casa num instante assim ouvira a voz de Hélio, que já trabalhava nesta zona há uns sete anos e e era inconfundível quando gritava «Correio! Cooo-rreio!»

Os animais aglomeravam-se à porta.

– Mas faltam os selos – observou o carteiro.- Assim não posso aceitar as cartas, lamento muito – e o pombo correio foi-se embora exatamente como havia chegado, com o saco castanho vazio.

Depois de uma viva discussão sobre o que deveriam fazer. Nero pediu a palavras, seguido da Nuvem, e depois o papá coelho, que a mãe coelha tratava afetuosamente por Pluminhas, para tentarem organizar propostas e chegar a uma decisão. Combinaram então fazer uma excursão até ao posto dos correios para obter as informações necessárias e comprar os selos.

Os sorteados foram Ettore, Pilú, Cornélia e Verdina. O posto dos correios ficava ao lado do ulmeiro, na estrada para o moinho; reconhecia-se facilmente pela insígnia amarela  e pelo banco de madeira onde os clientes descansavam quando havia muita gente para atender.

 

– Selos para Befana… Disseste selos para Befana, não foi? Vejamos, vejamos… – Temístocles, o responsável pelo posto dos correios, procurava no meio de uns grandes livros cheios de folhas de papel e retirava as divisórias com os selos.- Selos para o Menino Jesus,para o Pai Natal… – ao mesmo tempo que ia procurando nas pastas que estavam em cima das mesas – Não, não me parece que haja os tais para Befana – concluiu o pato ajeitando os óculos na ponta do bico.

– Eu bem disse que as cartas só são para o Pai Natal…- comentou Pilú que, como resposta, foi olhado pelos outros com desagrado e não ousou continuar a conversa.

– Mas, se quiserem, vocês mesmos podem fazer um selo e pedir autorização à central de correios. Se conseguirem essa autorização, as cartas serão expedidas – foi o conselho de Temístocles.

A notícia suscitou um enorme entusiasmo na quinta ! Inventar um selo. e em tão pouco tempo! Era preciso deitar mãos à obra o quanto antes! Dispuseram alguns feixes de feno em fila cobertos por pano comprido que cobria o trator; por detrás dispuseram uns caixotes pequenos de madeira e o Pilú foi buscar o candeeiro ao poleiro. Sissi correra atá casa e, num abrir e fechar de olhos, retirara da escrivaninha uns cartõezinhos e pincéis.

Fariam dois selos: um redondo com uma estrelinha dourada para as cartas de quem fora um bocadinho bom e um bocadinho menos bom. As três galinhas e Cleofe recortaram uns quadradinhos: Dulcineia, Cornélia e Jimmy preparavam as rodelitas enquanto rápido, rápido, a Nuvem e a Pérola desenhavam um estrelinha. A senhora coelha, que o marido tratava sempre muito afetuosamente por Primulina, a sua querida amiga, a senhora Ratinha, e a Sissi dedicavam-se ao desenho da lua. Os pequenos Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá e Si,  com os quatro coelhinhos, tinham acabado de os colorir. Nero e o burro Palmiro foram , por sua vez, encarregados de passar a cola por detrás do selo que depois Ettore e Max colavam no envelope.

Em suma, a organização era perfeita!

Entretanto, a notícia sobre esta empreitada espalhara-se por toda a vizinhança, graças também, à bisbilhoteira da Cleofe que tinha falado com a prima que, por sua vez, tinha comentado a notícia com o marido na presença de Sofia, a gata que morava na casa cor-de -rosa perto do rio e que, ao longo do trajeto, encontrara os esquilos que viviam no pinhal perto do bosque. E, neste momento, numa procissão contínua, todos chegavam vindos dos arredores para arranjar o selo e carimbar a carta para Befana, e já se formara uma fila enorme que começava no portãozinho de entrada.

A azáfama era imensa: passar; verificar o endereço, perguntar « estrelinha, luazinha ?», colar o selo, passar, carimbar pum!, passar; devolver o envelope. E depois o vaivém recomeçava, desta vez na direção do posto dos correios onde Temístocles já estava meio louco, juntamente com o seu ajudante, a meter as cartas nos sacos para a expedição.(cont.)

 

 

Texto de: Bianca Belardinelli, Contos de Natal, Círculo de Leitores,2010


– Bem, a Dulcineia ia a passar debaixo da janela da cozinha e ouviu a mulher do feitor dizer ao neto mais pequeno que a Befana  só lhe ia trazer carvão se ele não escrevesse uma carta à velhota a contar-lhe as boas ações a a desculpar-se, bem entendido, das faltas de respeito dos caprichos e coisas dessas-

-Mas tens a certeza disso? Como sabes, a Dulcineia é um pouco exagerada…

-De que estás a falar? – interrompeu a vaca Cornélia.

-Estava a contar o que a Dulcineia disse, mas o Pilú não acredita.

Cornélia virou o seu focinhão malhado de branco e castanho para o cão e, com um movimento para baixo, acompanhado do típico ruminar da boca, confirmou que sim, que a Dulcineia era uma pata distraída, mas que, desta vez, tinha mesmo razão. Entraram juntos no grande estábulo, tépido e acolhedor. O feno estava empilhado, as ferramentas encostadas à parede e trator  arrumado ao fundo, por detrás da grande coluna com a escadita que levava até lá cima , ao patamar.

E ali estavam os animais reunidos e ocupadíssimos a cavaquear e escrever. A família Ratinho viera em peso com os pequenos Dó, Ré, Mi, Fá , Sol, Lá, que baloiçavam dentro das meias estendidas na corda da roupa, enquanto o mais pequenito, o Si, tivera de contentar-se com umas calcinhas de flores! O papá rato era um verdadeiro apaixonado por música e conhecera  a mulher num concerto de Verão: Os Cigarra Jazz  Band, em tournée, tinham feito um espetáculo na eira da quinta. Em honra daquele amor à primeira vista, tinham decidido dar aos filhos os nomes das notas de música e, por uma questão de coerência, estavam agora a utilizar folhas de papel de música com muitas linhas e claves. Mais simples era o papel da ovelha Nuvem,criatura delicada e um pouco sonhadora que fora pedir conselhos à Sissi (outra alma super romântica!) e escolhera um papel de carta branco com envelope lilás.

Cleofe, a cabra, discutia com Palmiro, o burro, se seria melhor iniciar a carta com « Caríssima Befana » ou « Gentil  Senhora Befana», enquanto o touro Nero se mostrava preocupado com a folha que não queria amachucar sob o peso das suas patorras. (cont)

Texto de: Bianca Belardinelli, Contos de Natal, Círculo de Leitores,2010


« É magnífico! É encantador ! É admirável !», exclamaram todas as bocas, e a satisfação era geral.

Os dois impostores foram condecorados  e receberam o título de fidalgos tecelões.

Na véspera do dia da procissão passaram a noite em claro, trabalhando à luz de dezasseis velas. Finalmente fingiram tirar o estofo do tear, cortaram-no com umas grandes tesouras, coseram-no com uma agulha sem fios e declaram, ao cabo, que estava o vestuário concluído.

O sultão com os seus ajudantes de campo, foi examiná-lo, e os impostores, levantando um braço, como para sustentar alguma coisa, disseram:

– Eis as calças. eis a casaca, eis o manto. Leve como uma teia de aranha; é a principal virtude deste tecido.

– Decerto – respondiam os ajudantes de campo, sem ver coisa nenhuma.

-Se Vossa Alteza se dignasse despir-se – disseram os larápios -, provar-lhe -íamos o fato diante do espelho.

O sultão despiu-se e os tratantes fingiram apresentar-lhe as calças, depois a casaca, depois o manto. O sultão tudo era voltar-se defronte o espelho.

– Como lhe fica bem! Que talhe elegante!- exclamaram todos os cortesãos.- Que desenho! Que cores! Que vestuário incomparável!

Nisto entrou o grão-mestre de cerimónias:

– Está à porta o dossel sob o qual Vossa Alteza deve assistir à procissão- disse ele.

– Bom, estou pronto -respondeu o sultão.- Parece-me que não vou mal.

E voltou-se ainda uma vez mais diante do espelho, para ver bem o efeito do seu esplendor. Os camaristas que deviam levar a cauda do manto, não querendo confessar que não viam absolutamente nada, fingiram arregaçá-la.

E, enquanto o sultão caminhava altivo sob o dossel deslumbrante, toda a gente na rua e às janelas exclamava: “Que vestuário magnífico ! Que cauda tão graciosa! Que talhe tão elegante! “Ninguém queria dar a perceber que não via nada, porque isso equivalia a confessar que era tolo. Nunca os fatos de sultão tinham sido tão admirados.

– Mas parece que vai em cuecas- observou um pequerrucho ao colo do pai.

– É a voz da inocência- disse o pai.

– Há ali uma criança  que diz que diz que o sultão vai em cuecas.

“Vai em cuecas! Vai em cuecas!”, exclamou o povo finalmente.

O sultão ficou muito aflito, porque lhe pareceu que realmente era verdade. Entretanto tomou a enérgica resolução de ir até ao fim, e os camaristas submissos continuaram a levar com o máximo respeito a cauda imaginária.

 

Texto de : Guerra Junqueiro, Contos para a Infância, Educação Literária, Porto Editora