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Monthly Archives: Fevereiro 2014


carnestoltes_Steve Hanks

 

Ilustração de : Steve Hanks

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Um homem rico, mas avarento, tinha perdido dentro de um alforge uma quantia de ouro bastante avultada. Anunciou que daria cem mil reis de alvíssaras a quem lha trouxesse. Apresentou-se-lhe em casa um honrado camponês levando o alforge. O nosso homem contou o dinheiro, e disse:

 

–  Deviam ser oitocentos mil réis, que foi a quantia que eu perdi; no alforge encontro apenas setecentos. Vejo, meu amigo, que recebeste adiantado os cem mil réis de alvíssaras; estamos pagos, por conseguinte.

 

O bom camponês que nem por sombras tocara no dinheiro, não podia nem devia contentar-se com semelhantes agradecimentos. Foram ter com o juiz, que, vendo a má-fé do avarento, deu a seguinte sentença:

 

-Um de vós perdeu oitocentos mil réis; o outro encontrou um alforge apenas com setecentos. Resulta daí claramente que o dinheiro que o último encontrou não pode ser o mesmo a  que o primeiro se julga de direito. Por conseguinte, tu, meu bom homem, leva o dinheiro que encontraste e guarda-o até que apareça o individuo que perdeu somente sete mil réis. E tu,  o único conselho que passo a dar- te é que tenhas paciência até que apareça algum que tenha achado os oitocentos mil réis.

Texto de : Guerra Junqueiro, Contos para a Infância, Educação Literária, Porto Editora,


Os tojos bravos verdes

Embalam verde sono

Nos picos tão agrestes

Do seu verde abandono

Ai! Que sono na serra

Que a noite desterra!

As aves adormecem

Até à madrugada

Dormem nos verdes ramos

Sua verde almofada

Ai! Que sono na serra

Que a  noite desterra!

As formigas os ralos

Suas vidas pequenas

Dormem os sonos verdes

Da humildade serena

Ai! Que sono na serra

Que a noite desterra!

Somente o mocho pia

Na noite já tão escura

Seu piar é canto

De dormente verdura …

Ai! Que sono na serra

Que a  noite  desterra!

Texto de: Matilde Rosa Araújo, As fadas Verdes, Porto


A brancura da Lua

Na serra adormecida

É uma foice brilhante

Duma seara perdida

Ai! Que sono na serra

Que a noite desterra!

A noite vai descendo

Sobre toda a verdura

As estrelas tombando

Sua verde brancura

Ai! Que sono na serra

Que a  noite desterra!

O alecrim e as urzes

Estevas e rosmaninhos

Escutam o sono verde

das flores de verde pinho

Ai! Que sono na serra

Que a noite desterra!

As giestas perdem cor

A cor da alegria

Giestas que foram festas

Das abelhas do dia

Ai! Que sono na serra

Que a  noite  desterra! (cont)

Texto de: Matilde Rosa Araújo, As fadas Verdes, Porto