O fato novo do sultão IV


« É magnífico! É encantador ! É admirável !», exclamaram todas as bocas, e a satisfação era geral.

Os dois impostores foram condecorados  e receberam o título de fidalgos tecelões.

Na véspera do dia da procissão passaram a noite em claro, trabalhando à luz de dezasseis velas. Finalmente fingiram tirar o estofo do tear, cortaram-no com umas grandes tesouras, coseram-no com uma agulha sem fios e declaram, ao cabo, que estava o vestuário concluído.

O sultão com os seus ajudantes de campo, foi examiná-lo, e os impostores, levantando um braço, como para sustentar alguma coisa, disseram:

– Eis as calças. eis a casaca, eis o manto. Leve como uma teia de aranha; é a principal virtude deste tecido.

– Decerto – respondiam os ajudantes de campo, sem ver coisa nenhuma.

-Se Vossa Alteza se dignasse despir-se – disseram os larápios -, provar-lhe -íamos o fato diante do espelho.

O sultão despiu-se e os tratantes fingiram apresentar-lhe as calças, depois a casaca, depois o manto. O sultão tudo era voltar-se defronte o espelho.

– Como lhe fica bem! Que talhe elegante!- exclamaram todos os cortesãos.- Que desenho! Que cores! Que vestuário incomparável!

Nisto entrou o grão-mestre de cerimónias:

– Está à porta o dossel sob o qual Vossa Alteza deve assistir à procissão- disse ele.

– Bom, estou pronto -respondeu o sultão.- Parece-me que não vou mal.

E voltou-se ainda uma vez mais diante do espelho, para ver bem o efeito do seu esplendor. Os camaristas que deviam levar a cauda do manto, não querendo confessar que não viam absolutamente nada, fingiram arregaçá-la.

E, enquanto o sultão caminhava altivo sob o dossel deslumbrante, toda a gente na rua e às janelas exclamava: “Que vestuário magnífico ! Que cauda tão graciosa! Que talhe tão elegante! “Ninguém queria dar a perceber que não via nada, porque isso equivalia a confessar que era tolo. Nunca os fatos de sultão tinham sido tão admirados.

– Mas parece que vai em cuecas- observou um pequerrucho ao colo do pai.

– É a voz da inocência- disse o pai.

– Há ali uma criança  que diz que diz que o sultão vai em cuecas.

“Vai em cuecas! Vai em cuecas!”, exclamou o povo finalmente.

O sultão ficou muito aflito, porque lhe pareceu que realmente era verdade. Entretanto tomou a enérgica resolução de ir até ao fim, e os camaristas submissos continuaram a levar com o máximo respeito a cauda imaginária.

 

Texto de : Guerra Junqueiro, Contos para a Infância, Educação Literária, Porto Editora

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