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Monthly Archives: Novembro 2013


muerta-de-amor2

 

Bom fim de semana.

Ilustração de : Mónica Carretero

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Entrou o honrado ministro na sala em que os dois impostores trabalhavam com os teares vazios.

– Meu Deus! – disse ele para si arregalando os olhos .- Não vejo absolutamente nada! – mas no entanto calou-se. Os dois tecelões convidaram-no a aproximar-se, pedindo-lhe a opinião sobre desenhos e as cores. Mostrando-lhe tudo, e o velho ministro olhava, olhava, mas não via nada, pela razão simplíssima de nada lá existir…

– Meu Deus!- pensou ele. – -Serei realmente estúpido? É necessário que ninguém o saiba ! … Ora esta! Pois serei tolo realmente! Mas lá confessar que não vejo, isso é que não confesso.

– Então que lhe parece? – perguntou um dos tecelões.

– Encantador , admirável! – respondeu o ministro, pondo os óculos. – Este desenho … estas cores … magnífico ! … Direi ao sultão que fiquei  completamente satisfeito.

– Muito agradecido, muito agradecido – disseram os tecelões, e mostraram-lhe de novo as cores e desenhos imaginários, fazendo-lhe deles uma descrição minuciosa. O ministro ouviu atentamente, para ir depois repetir tudo ao sultão,

Os impostores requisitavam cada vez mais seda, mais prata e mais oiro; precisavam-se de quantidades enormes para este tecido. Metiam tudo no bolso, é claro . O tear continuava vazio, e, apesar disso , trabalhavam sempre.

Passado algum tempo, mandou o sultão um novo funcionário, homem honrado, examinar o estofo e ver quando estaria pronto. Aconteceu a este enviado o que tinha acontecido ao ministro: olhava, olhava e não via nada. (cont.)

Texto de : Guerra Junqueiro, Contos para a Infância, Educação Literária, Porto Editora


Era uma vez um sultão, que despendia em vestuário todo o seu rendimento.Quando passava revista ao exército, quando ia aos passeios ou ao teatro, não tinha outro fim senão mostrar os seus fatos novos. Mudava de traje a todos os instantes, e como se diz de um rei: Está no conselho, dizia-se dele: está a vestir-se. A capital do seu reino era uma cidade muito alegre, graças à quantidade de estrangeiros que por ali passavam. Mas chegaram lá um dia dois larápios que, dando-se por tecelões, disseram que sabiam fabricar o estofo mais rico que havia  no mundo. Não eram só extraordinariamente ricos os desenhos e as cores, mas, além disso, os vestuários feitos com esse estofo possuíam uma qualidade maravilhosa: tornavam-se invisíveis para os idiotas e para todos aqueles que não exercessem bem o seu emprego.

– São vestuários impagáveis – disse consigo o sultão.- Graças a eles, saberei distinguir os inteligentes dos tolos e reconhecer a capacidade dos ministros. Preciso desse estofo.

E mandou em seguida adiantar aos dois charlatães uma quantia avultada, para que pudessem começar os trabalhos imediatamente.

Os homens levantaram com efeito dois teares, e fingiram que trabalhavam, apesar de não haver absolutamente nada nas lançadeiras.

Requisitavam seda e ouro fino a todo o instante, mas guardavam tudo isto muito bem guardado, trabalhando até  à meia noite com os teares vazios.

– Necessito saber se a obra vai adiantada.

Ma tremia de medo, lembrando-se  de que o estofo não podia ser visto pelos idiotas. E por mais que confiasse na sua inteligência, achou em todo o caso prudente mandar alguém adiante.

Todos os habitantes da cidade conheciam a propriedade maravilhosa do estofo e ardiam em desejos de verificar se seria exato.

– Vou mandar aos tecelões o meu velho ministro – pensou o sultão.- Tem um grande talento; ninguém melhor do que ele pode avaliar o estofo.(cont.)

Texto de : Guerra Junqueiro, Contos para a Infância, Educação Literária, Porto Editora


Uma coisa que me põe triste

é que não exista o que não existe.

( Se é que não existe, e isto é que existe!)

Há tantas coisas bonitas que não há:

coisas que não há, gente que não há,

bichos que já  houve e já não há,

livros por ler, coisas por ver,

feitos desfeitos, outros feitos por fazer,

pessoas tão boas ainda por nascer

e outras que morreram há tanto tempo!

Tantas lembranças de que não me lembro,

sítios que não sei, invenções que não invento,

gente de vidro e de vento, países por achar,

paisagens, plantas,jardins de ar,

tudo o que eu posso imaginar

porque se o imaginasse já existia

embora num sítio onde só eu ia …

 

Texto de : António Manuel Pina, O pássaro da cabeça e mais versos para crianças, Assírio Alvim & Alvim, 2012