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Monthly Archives: Setembro 2013


Solar system smaller Brendan Kearney

 

Cada um tem a sua rota.

Ilustração: Brendan Kearney

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Rio no rio

canto a um canto

de madrugada.

Não mato o mato

semeio a semente

na terra molhada.

De que me livro

se ler um livro?

Da solidão.

São como um pero

todas as coisas

são como são.

Amo quem amo.

Ao amo obedeço

sem sentimento.

Quem apaga a vela

e leva à vela o barco?

O vento.

Um sonho mau

um sonho doce

para trincar.

No meu quarto

Um quarto de hora

chega para brincar.

A linha está torta

torta de laranja

para saborear.

Meia rota e velha

e só meia hora

para remendar.

São tantas as coisas

que há neste mundo

que só um dicionário

não ia chegar …

E certas palavras

menos egoístas

não se importam

de as partilhar.


«…  Saltando e correndo, Isabel dirigiu -se para o pequeno bosque. Ia tão apressada que nem se lembrava de comer o pão que levava na mão. Ia cheia de curiosidade e de medo, pois temia que alguém tivesse destruído a sua obra.

Mas quando chegou à frente do velho tronco sorriu de alegria. A casa estava intacta, com o telhado de casca de plátano muito bem coberto de musgo e a porta de cana muito bem fechada. E tinha um ar extraordinariamente sossegado e confortável.

Isabel ajoelhou-se no chão e com cuidado abriu a porta.

Aquilo que viu deixou-a imóvel, muda, com boca aberta, com os olhos esbugalhados e as mãos erguidas e abertas no ar.

Durante alguns momentos o seu espanto foi tão grande que nem se podia mexer, nem podia pensar no que via.

Depois, devagar, esfregou os olhos. Abriu -os muito e murmurou:

– Estou a sonhar!

Pois dentro da casa tinha acontecido uma coisa extraordinária e incrível: em cima da cama estava deitado um verdadeiro anão.

Esse anão dormia. E dormia tão profundamente que até ressonava. A sua cara era vermelha como um morango e as pontas da sua longa barba tocavam no chão.

No meio do seu espanto, Isabel sentia uma grande alegria e uma grande ternura. Pensando bem parecia-lhe que durante toda a sua vida tinha estado à espera daquele anão. Encontrá-lo agora, ali, era uma coisa muito extraordinária mas também muito simples.

Mediu-o com o olhar e calculou que ele devia ter exatamente um palmo de altura.

– Os anões ainda são mais pequenos do que eu imaginava – pensou ela.

Apetecia-lhe acordá-lo, pois tinha a maior curiosidade de saber se ele falava e em que língua. Temia que existisse uma língua dos anões que ela não fosse capaz de entender. Pensou chamar baixinho por ele:

– Senhor anão!

Mas teve medo de o assustar. E resolveu esperar que ele acordasse.

Sem fazer nenhum barulho estendeu-se ao comprido no chão e apoiou a cara e as mãos. Era uma posição cómoda. Poderia ficar assim muito tempo a olhar enquanto ele continuasse a dormir.

O anão estava tapado com o cobertor mas a ponta  das suas botas estava descoberta. A sua cara, muito vermelha e cheia de pequeninas rugas, tinha uma expressão ao mesmo tempo alegre e sisuda. Uma das mãos estava de fora da roupa, poisada sobre a barba, e no dedo anelar brilhava um minúsculo anel de oiro.

Isabel não se cansava de olhar.

E pensava:

– Que coisa tão extraordinária! Fiz uma casa para um anão que não existia e o anão apareceu! …»

Texto de : Sophia de Mello  B. Andersen