O senhor do seu nariz VII


” – Não te lembras de mim?- perguntei.

Ela disse que sim, a olhar para o chão, talvez envergonhada pelo que tinha feito. E disse, por fim, com as mãos cruzadas sobre o peito:

-Desculpa ter-te dado um nariz do tamanho de um chouriço.

-Deixa lá isso – disse eu– Até me deu jeito. E agora diz-me: o que te aconteceu?

– A minha vida de fada deu para o torto. Não sei porquê, esqueci-me do sítio onde fica a porta no ar por onde costumo passar. O que havia de me acontecer! E logo hoje que tinha tanto para fazer.

– E agora?

– Não consigo regressar e o meu corpo de fada está a definhar. Acho que vou morrer.

– Não se te mexeres. Quem não se mexe emperra. Se não podes ser fada e voar e passar por uma porta no ar, aguenta-te em terra. Gostas de sopa de ervilhas e hortelã? E de pão fresco pela manhã?

A fada não sabia se gostava nem se lhe apetecia. Só queria um sítio calmo e limpo para morrer. Mas apreciou a sopa de ervilhas e hortelã que lhe preparei. E que a fez renascer. Na manhã seguinte, também apreciou o pão acabado de cozer. E o sabor do leite não era pior. Para ela era tudo novo, era tudo bom, mas podia ainda ser melhor.

Por isso, passou a cozinhar à sua maneira, usando uns pozinhos que voavam no ar da cozinha. Pão de fada, cozido de fada, salada de fada, bolinhos de fada. Não vos digo nada! Aquilo não era uma fada do ar era uma fada do lar. E era só minha.

– Além de ti ninguém me pode ver ou será o meu fim- disse ela abraçada a mim.

E foi assim que nunca mais se abriram as portas e as janelas da minha casa.Além disso deixei de receber vistas e mandei levantar mais os muros do meu jardim.Mas aqueles aromas escapavam pelas frinchas de portas e janelas. As pessoas paravam de caminhar na rua e ficavam com o nariz  no ar. Nunca ninguém tinha cozinhado tão bem. Logo, havia ali qualquer magia, qualquer feitiço. Não era preciso ter um nariz do tamanho de um chouriço para dar por isso. E, um dia um rapaz mais curioso e mais destemido saltou o muro e deparou com a fada, que andava no jardim, a colher verduras para o jantar. ”

(cont.)

texto de: Álvaro Magalhães

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