O senhor do seu nariz II


” Era desagradável ser tão diferente do resto da gente, mas que havia de fazer se era esse o meu destino ? Quanto ao meu nariz imponente, também era pesado e obrigava-me a andar inclinado para a frente. Tinha dores nas costas desde pequenino.

E não era em todo o lado que cabíamos os dois. Havia sítios onde só ele ia. Eu esperava, cá fora. Ou vice-versa. Tanta vez que isso aconteceu: ou entrava ele ou entrava eu. E não era só isso. Ele chegava antes de mim a todo o lado. Quando eu entrada já ele lá tinha estado. Era aborrecido, não digo que não, mas habituei-me, que a gente habitua-se a tudo. Até a um nariz do tamanho de um chouriço. Por isso…

Aliás também havia coisas que corriam bem e chegavam para me fazer feliz. Nas corridas, por exemplo, ganhava sempre por um nariz. E, claro, cheirava como ninguém, pois então. As pessoas cheiravam o mar, os bosques e as flores, eu cheirava o mar, os bosques e as flores, como nem o mar, os bosques e as flores sabem que são. Mas havia mais: para saber o que estava a acontecer bastava-me cheirar. Se me esforçasse e cheirasse mais forte, mais fundo, era capaz de perceber o que alguém estava a fazer num recanto qualquer de outro lado do mundo.

Custa a acreditar, mas é verdade. Aliás, bastava-me cheirar quando estava esfomeado. Fechava os olhos e para ali ficava, a saborear aquilo de que mais gostava. Chegava a ficar enfartado.

Porém nem tudo corria bem. ”

(cont.)

texto de: Álvaro Magalhães

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