Canção para Dirceu I


“Nós morávamos num rés do chão com quintal, ali para os lados da Granja das Malvas, à beira da cidade nova. Morávamos, mas já não moramos.

Deram em construir prédios de muitos andares,onde dantes só havia hortas e casinhas baixas, como a nossa, e vai daí a Granja das Malvas, cimentada e alcatroada, ficou irreconhecível. Parece que já nem assim se chama.

A nossa velha casa foi abaixo. A mim custou-me principalmente por causa do quintal, que tinha um tanque ao fundo, meia dúzia de árvores de frutos e uma latada ferrugenta. Não andaria muito estimado o nosso quintal, confesso, mas sinto-lhe a falta.

Viemos estrear um desses apartamentos, que anunciavam nos jornais. Para mudar  de ares, nós que sempre tínhamos vivido rente ao chão, escolhemos um sétimo a andar com vista para o rio. É o que nos vale.

A mesma opinião não teria o Dirceu. Descontando a Marília, coitada que nem tempo teve para se habituar às alcatifas da casa nova, o Dirceu foi o que mais se ressentiu com a troca.

Dirceu e Marília, o nosso casal de cágados, que o infortúnio separou, acompanharam com indiferença os preparativos da mudança, supondo talvez que todos podiam abandonar o rés-do-chão do quintal menos eles. Sempre se tinham arrastado por ali, sobre as velhas tábuas e o musgo dos canteiros, e nem sequer imaginavam que o mundo pudesse ser maior do que um quintal sombrio. ” (cont.)

 

Texto de: António Torrado

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: