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Monthly Archives: Março 2013


” Eu é que não me conformo e acrescento o que passo a expor.

Vamos admitir que o candeeiro, feito de liga de metal de qualidade superior, foi recuperado para ser sujeito, com muitos outros, a diversos tratos e fusões, até se transformar numa chapa muito resistente.

E depois? Depois apara-se, apura-se, atarracha-se, aparafusa-se e da chapa faz-se um foguetão. Um foguetão em direcção à Lua. Lá vai ele com o coração do candeeiro dentro.

Sonho de candeeiro apaixonado ou verdade verdadinha, pouco importa. Eu queria que esta história acabasse bem.”

Texto de : António Torrado


“O caso era que o candeeiro estava apaixonado. Só assim se percebe porque é que a iluminação daquele pedaço de rua era mais forte, mais clara, mais firme, mais brilhante.

E apaixonado por quem? Pela Lua, imagine-se o despropósito. Ela tão longe, tão fria, tão inconstante – umas vezes cheias, outras minguada – cativar assim um candeeiro municipal, um insignificante candeeiro, é história que não faz sentido.

Também acho, mas que  hei-de eu fazer? Há paixões assim, que ninguém entende. E, como muitas outras coisas, não correspondida.

O candeeiro, em bicos de pés, lançava a sua luz o mais o mais além que podia. Nem que fosse o mais potente dos faróis. A Lua soberba , toda inchada por ser Lua, a única em destaque  no céu pintalgado de estrelinhas pisca-piscas.

Insensível aos versos dos poetas e ao miar dos gatos, olha-se no seu próprio espelho e não atende a mais nada. Muito menos a um pirilampo da terra.

Há que reconhecer que a distância não ajudava muito. Tivesse ele oportunidade de chegar-se um bocadinho que fosse à sua enamorada … Mas como?

Como quisermos. Basta supor que os senhores vereadores da Câmara Municipal resolveram substituir os candeeiros da cidade por outras de um modelo mais recente. Até veio nos jornais.

O candeeiro é que soube da notícia quando uma máquina gigantesca o arrancou do passeio. Nem lhe deram tempo para lançar uma última cintilação de adeus, em direcção à sua amada.

Ia para a sucata. Fim da história. Amor de perdição como tantos mais.” (cont.)

Texto de : António Torrado


“Era um candeeiro de iluminação pública. à beira do passeio, iluminava como podia o bocado de rua que lhe coubera em sorte.

Acendia, quando tinha de acender e, já se vê, passava a noite em branco. Mal a manhã despertava, adormecia ele. O barulho do trânsito embalava-lhe o sono.

Até aqui nada de novo. Candeeiros de rua iguais a este há milhões. Mas algo de especial o distinguia dos outros. Um grande segredo.

Nem que passe por bisbilhoteiro, sinto-me obrigado a revelá-lo. Como é que havia, se eu guardasse o segredo só para mim?” (cont.)

Texto de : António Torrado